sexta-feira, 23 de maio de 2008

Só risos

Só
Risos
Alegria interior de amar
Os olhos não precisam ver
O que eu quero enxergar
Meus lábios se revoltam
Com a secura do ar
Mas os sons de outrora
Dos tempos da aurora
Vão se dissipando ao luar
Na troca de cores do horizonte
Da janela da minha alma
Coberta de algum pó
Manchas que não vou limpar
Mas deixar que o tempo
Lave com suas gotas de vento
O que eu tiver que me livrar
E minha boca
Antes fechada e muda
Sorri agora
Escancarada e nua
Sem medo de se ouvir gargalhar...

Baco Dionisío
23/05/08

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Fresta

O vão deixa a luz baça
Delinear um traçado
Caminho de pó
Rota de sol disfarçado
Entreaberta em rasgo
Laser de sentidos
Calor de visão
A fresta transpira
Sua em propulsão
Expelindo a quietude
Marcando o couro
Cicatrizando tatuagens
No seu foco sem lente
Projeta imagens
Limpa minha mente
E os olhos da noite
Semicerrados
Como lua crescente
Expia...

Baco Dionísio, navegando por instrumentos, mas seguindo em frente...ótima noite para todos
15/05/08

Dilata

Dilata
O metal aquece em magenta
Contrai
Nervos tesos em blue
Delata
Ocular testemunha entrega
Trai
No vacilo escorrega e cai
Descarta
Papelada voando rumo ao sul
Traz
Migratórias em busca de amor
Discreta
A gélida sensação se esvai
Esgueira-se
Serpenteia em busca de calor
Recolhe-se
Mastiga o frio como antipasti
Entre a lã e o algodão
Paixão

Baco Dionísio, dia do ócio com tinto, pão rústico e roquefort...
30/04/08

A lágrima do amor

É fértil
Cai no solo seco
Vira um oceano
Escorre pelo colo
É um rio
Nos olhos rasos
É nascente
Na Lua grande
É vertente
Lágrima de dor
Teu sal me alivia
Mancha meu cinza
E me devolve a cor
Lágrima valiosa
Diamante de sentimento
Brilha no teu rosto
Aquece
Evapora o sofrimento.

Baco Dionísio,
24/04/08

Senhora das Pedrarias

Costura seus fios
Metais puxados em pentes
Meandros de origens diferentes
Desfiados e desafiantes
Estirados e tirantes
Engenharia de equilibrar
Arquitetura de adornar
Jardinagem de combinar
Formas de cores
Lâminas de aparar
A geometria dos veios
Gotas petrificadas
Transparências em âmbar
Flores de ágata
Fósseis de enfeitar
Desenhos a contornar
Pescoços, orelhas,
Dedos sem calos
Colos de completar
Contas únicas
Com a luz das pedrarias
Que a Senhora faz brilhar

Baco Dionísio
08/04/08

À mesa

Na frente dos meus olhos
Teu olhar não desvia
Os perfumes gustativos
Acendem o braseiro
O alimento vira combustível
Teu cheiro me alimenta
Uma sede que a água não afugenta
Expressa-se em ebulição
Não queima, mas ardenta
Deixa as faces rubras
Deixa um gosto de pimenta
Nos teus lábios que abrem
E fecham instáveis
São uma tormenta
Teus cabelos a cobrir
Pela metade o rosto febril
Esconde e esquenta
Sabores de amor
Velas de desejos
Toques de carinho
Delícias carícias

Baco Dionísio, ótima noite, ótimo jantar...
03/04/08

Língua

Um gesto verbaliza
O tom de farda germânico
Degusta e temporiza
No francês orgulhoso e urbano
Festeja ao redor da mesa
Numa tarantela de taças e desenganos
No pensamento grego
De quebrar o ritual cerâmico
Das sangrias ibéricas
De bailar entre touros
Da facilidade portuguesa
De conviver com os mouros
Na ilha do horário pontual
O chá encerra as brumas...
Em todas as falas
Nas diversas combinações
De letras e grafismos
A língua passeia
Enrola e serpenteia
Retrai e se expõe
Sempre sabe se expressar
Quando quer dizer amor

Baco Dionísio, uma noite cheia de encantos em todas as línguas e encontros...
02/04/08

Espreita-se

Uma namorada que brilhe de dia
À noite furtiva, roube meu sono de dor,
No calor da fome
Do apetite, do acepipe,
Nos beijos loucos do amor
Sem saber se vai embora
Sem noção se é só na hora
Que me encostas na tua ilação
Que se esgotes de gemidos
Infinitos sem redenção
Que digas meu nome
E outras palavras sem razão

Baco Dionísio
31/03/08

Sob o som de chover

Sob o som de chover
Preguiça espanta e faz mover
Toda secura que pranteia
Toda ressecada que espanta
Algo assim como não-viver...
Sob o som dessa chuva
Deixo os sonhos escorrerem
Traçando caminhos em minha pele
Arrepiando minha derme
Deixando explodir minha verve
Colhendo gotas sujas de limpar
Os poros que ainda hão de suar...

Baco Dionísio, ainda que escorregando nos versos, deseja a todos um ótimo fim de semana
14/03/08

Água que não vem

Água que não vem
Enquanto a chuva ameaça
Deixa as pétalas eriçadas
Na espera de gotas e lágrimas
Tira-me o pó da estrada
Afoga minhas pegadas pesadas
Deixe a lama me proteger
Desses raios de prata
Piso cerâmicas e pedras
Preciosas e lapidadas
Água que não cai na minha pele
Molha meus poros de febre
Aplaca minhas idéias de seguir
Sem apontar estradas
Chuva seca a sugerir
Que minhas flores se bastam
Para recolher ao dormir
Toda a umidade da noite

Baco Dionísio
11/03/08

Vocábulos

Nestas palavras que escrevo
Digo o que queria guardar
Sinais rupestres das minhas retinas
Descobertos pelo acaso das minhas sinas
Talho sílabas no cinzel de teclados
Nem brancas nem pretas
Mas de relevo incrustado
Ativam o projetor das lembranças de leitura
Atiçam a luz das roldanas e catapultas
De engrenagens e células elétricas
Trocando carícias e liquens
Medusas e pólipos no mar da minha cabeça
A viajar em tempestades contraditórias
Da razão que a paixão engole
Ou da paixão que a razão regurgita
Frases inteiras ainda terão de ser ditas
Para que eu mesmo não me esqueça.

Baco Dionísio, ceifando o mato com a lâmina da Lua minguante, boa noite a todos
05/03/08

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Lã

Na cobertura isolante
Entre o frio e o calmante
Aconchego do próprio calor,
Novelo sem enredo,
Brincadeira de bichano
Tosquiando no enlevo
Sem enrosco, sem engano,
Folheando o tempo
Dedilhando encantos
Nas agulhas de um pano,
Nas agruras de um pranto;
Tecelão sem rendas
Tricotando seus danos,
Sem crochê de enfeite
Sem brioche de leite
No macramé de engodos
A nudez das ovelhas
A esquentar meus sonhos.

Baco Dionísio, ótimo feriado para todos, com frio, queijo e vinho...
18/04/08

Valsa

Minha mão lhe desenha
Desdenha das regras
Deseja enlaçá-la
Sem dizer uma palavra
Nos sinais sem sons
A direita nas suas costas
A esquerda na sua direita
O corpo junto
Contrastes de contornos
Sem delinear
Sem passo linear
Cem passos a voar
Flutuando sob o som
De nossa própria imaginação
No rodopio pelo salão
Do piso de grama
Do perfume araucário
Spot de Lua
Pio de coruja
Violino a vibrar
Lenha a crepitar
Dois pra lá, dois...

Baco Dionísio, convidando a valsar...
15/04/08

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Chumaço

O horizonte não tem cor
Por esconder todas as matizes
Nesta colcha acinzentada
Do outono que o recobre
Na manta das temperaturas abafadas
Gritos sussurrados de enfastio
Barométrica pressão desacordada
Crayon gris raspado
Na tríplice lâmina
Respingos de calor e vela sem chama
Passeio de pincel sem diluir
Espátula cremosa
A cimentar um céu vazio
Texturas e relevos de algodão
Sujo da limpeza do rosto do verão
Encardido da fumaça absorvida
Úmida da chuva reprimida
Clara e escura como a desilusão

Baco Dionísio, procurando a aquarela para tirar o cinza da vista!
10/04/08

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Tâmaras

São tão mulheres
Na cor bronzeada
Na fina casca
Delicada ao toque
Ao olhar uma carapaça...
Na boca, sem queixume,
É doce ao encontrar os dentes
Azeda enquanto brinca na língua
Ácida para um sabor básico
É fruta carnuda
Quando destila na boca
Seus venenos fêmeos
Sonhos efêmeros

Baco Dionísio, trocando uvas por tâmaras, damascos, figos ...

segunda-feira, 31 de março de 2008

Sol

O que vejo é a silhueta
Da sombra do meio-dia
Tão pequena, concentrada,
Condensada em pouco espaço
Da luz quente a pino
Ereta forma de brilhar
Sem contornos
Uma mancha no chão
Resumo de todo o corpo
Síntese de toda a vida
Um borrão de energia
Contida pelo bloqueador
Dos cremes da existência
Inexistente cor
Reflexo da relativa
Arte de se expor.

Baco Dionísio, fim de semana de escalda pés, chás e outros rituais anti-gripais, mas que tudo passa e que vocês tenham o Sol a lhes beijar
28/03/08

quarta-feira, 19 de março de 2008

Lua Doce

Disco serrilhado
Fatiando as estações
No céu da minha cidade
No imprevisível rodar
No toca-discos de nuvens
Vai em lâminas dividindo
Cada sulco uma dor
Cada ranhura outra cor
Uma queimadura
Outro refrescor
Lua que brinca de esconde
Ainda incompleta
Leva a temperatura, se aquieta
Deixa o frio sem tremer
Acalmar meu dormir
Deixar o amor sorrir
E a vida se permitir
De uma nova estação começar

Baco Dionísio, desejando a todos Páscoa de bourdeaux e Borgonha...
19/03/08

terça-feira, 18 de março de 2008

Jardineiro

Cultivo essências
Nas pontas dos dedos
Digitais das camadas de terra
Que remexo usando mãos como arado
Deixo passar experiências
Por entre os vãos, como grãos
Que escapam das minhas palmas em conchas
Transbordando gota a gota
No toque do relógio das luas
À espera do germinar das sementes
Que antes coloriram tua pele
Perfumaram teu olfato
Seduziram teu olhar
Na forma de uma flor
Não vejo apenas essas cores
Mas as raízes a sulcar o solo
Penetrar nos veios de nervos
Ramificar em desejos
Tirar do sal da terra
O doce da polpa carnuda
Que o Sol transformou ao gozar.

Baco Dionísio, revolvendo o quintal coberto de folhas de cobre
18/03/08

sexta-feira, 7 de março de 2008

Espelho


Espelho, espelho meu
Qual imagem tua me revela nua
Tão bem vestida
Tão bem delineada
Que qualquer mancha ou mancada
Some ao ser retocada
Como num software de computador
Imagem tua convexa
Não queiras fazer uma novela
No tom da cor da nuance do cabelo
Jamais tão claro que não encubra
Nunca tão escuro que não ilumine
Sempre tão liso quando dna de nascimento
Sempre encaracolado quando tão firme ao vento
E porque não gemer
Na sessão semanal de cera quente
Que retira os fios vestígios de animal
Para guardá-los recônditos nos urros e sussurros
Do fogoso desejo de garras a dominar
Nos olhos contornados de carbono 14
Nos lábios sinalizados de vapores de mar
No olhar que atravessa o vidro e o chumbo
Para transmutar em ouro o que te deixas tocar

Baco Dionísio, celebrando todos os dias universais da grande versão humana: a mulher!
Ótimo final de semana
07/03/08

segunda-feira, 3 de março de 2008

Por aí...

Coisas de fazer sem querer
Essas de se ausentar sem partir
De ficar longe a espiar
Expiando uma vontade doida
De quebrar a vidraça
Nesta tela de tungstênio
Cristal líquido ou plasmatrófico
Sair por aí distribuindo cacos
Como relíquias de um passado
Arqueologicamente fundamentado
Na dialética vã sem conteúdo
Sem direção na busca de algum sentido
Sem palavras na regência de um verbo inculto
Nos olhares de um vasto mundo
“Que me cabe neste latifúndio”
Vidas secas a regar de adubo
Novas rimas sem padrão e de subúrbio
Contas de armazém, fiado ou plástico fundo
Batendo as contas e acordando em um segundo
Nos livros vou reencontrando o velho mundo
Que meu braços deixaram de carregar há muito...

Baco Dionísio, acertando detalhes e entalhes, tudo de uma vez e cada qual na sua vez, livrando-se dos cascos e voltando seus olhos para o próprio jardim...
03/03/08